Caso Francisca: falso médico, mentiras e corpo encontrado meses depois

Maria Francisca dos Santos desapareceu em junho do ano passado, em Tabuaço, no distrito de Viseu, onde vivia há vários anos. Desde essa altura que o paradeiro da cidadã brasileira, de 44 anos, está envolto em mistério, com muitas pistas a apontarem para um possível homicídio.
Durante semanas, o seu desaparecimento foi notícia. As autoridades procuraram-na e o irmão deslocou-se até Portugal numa tentativa de encontrar a familiar.
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Descobriu-se que o alegado namorado, que dizia ser médico, era afinal cantoneiro e mentia a Francisca não só quanto à sua profissão, como quanto ao facto de viver com outra mulher.
Foram efetuadas diligências para tentar encontrar a brasileira e perceber se o seu desaparecimento tinha mão criminosa. Mas ninguém foi detido, nem constituído arguido.
Os dias foram passando e Maria Francisca caiu no esquecimento público. Até que, no dia 26 de fevereiro, oito meses depois do seu desaparecimento, um corpo em elevado estado de decomposição foi encontrado numa vinha junto ao cemitério de Tabuaço.
Logo na altura, fonte da Guarda Nacional Republicana (GNR) disse ao Notícias ao Minuto que o corpo aparentava ser de uma mulher.
Dias depois da descoberta macabra, o que se sabe mais?
Entretanto, esta segunda-feira, 2 de março, o Notícias ao Minuto falou com a Polícia Judiciária (PJ) que confirmou que o caso continua a ser investigado e que, para já, ainda não há confirmação oficial de que o corpo encontrado pertença realmente a Francisca.
O que se sabe para já, segundo o Correio da Manhã, é que os restos mortais tinham consigo umas chaves e “uma argola com um coração em prata, uma Nossa Senhora e o São José” e que, segundo o irmão da brasileira desaparecida esta tinha comprado algo idêntico quando foi a Fátima.
“A minha irmã contou que comprou o coração e as imagens quando foi a Fátima e nada disso estava em casa “, garantiu ao matutino António Sousa, que não tem “grandes dúvidas” de que se trata de Francisca.
Já quanto às chaves, não foi possível confirmar se estas pertenciam à casa arrendada por Francisca em Tabuaço, uma vez que o canhão da fechadura foi, entretanto, trocado pelo senhorio. Mas tudo indica que sim, porque tinham inscritas a morada da residência.
Ainda de acordo com o Correio da Manhã, a PJ de Vila Real destacou uma vasta equipa de inspetores para trabalhar no caso. Para já a linha de investigação aponta para um crime passional. Mas todos os cenários estão ainda em aberto.
Corpo descoberto de manhã, mas GNR só foi chamada perto do almoço
José Manuel foi um dos trabalhadores da vinha no morro do Parque do Calvário que encontrou o corpo que será de Francisca, desaparecida a 20 de junho do ano passado, em Tabuaço. “Psicologicamente, não é fácil encontrar um corpo naquele estado”, disse, emocionado, ao jornal.
Antes, o colega Vítor Fonseca já o tinha visto, pelas 9h30, mas ficou tão chocado que só ganhou coragem para contar aos colegas algumas horas depois.
“Fiquei em choque, não disse nada aos meus colegas. Fomos tomar a merenda da manhã e nem consegui comer”, disse, revelando que viu “as ossadas, com um cabelo ‘grencho’ negro, leggings, uma sapatilha e uma meia num pé”:
“Foi arrepiante, ainda não consigo comer”, confessou.
E foi nessa altura, quando já era perto da hora de almoço, que o grupo de trabalhadores chamou a GNR.
Francisca desapareceu quando foi levar o lixo
Maria Francisca dos Santos desapareceu na noite do dia 20 de junho, depois de ser vista, de pijama, a sair de casa para deitar fora o lixo doméstico, pelas 22h.
As luzes de casa ficaram acesas e os documentos no local onde os guardava. Francisca só levou consigo o telemóvel cuja última localização foi registada perto do lixo, como explicou o irmão, António Santos, na altura, ao site brasileiro G1.
O médico que era, afinal, cantoneiro (e tinha outra mulher)
O desaparecimento foi denunciado às autoridades no dia seguinte pelo namorado de Francisca, identificado como Luís Jesus e pelo patrão, que achou estranhou o facto da funcionária não ter comparecido ao trabalho. Há, no entanto, relatos que indicam que Francisca e Luís, que não será da região, já não seriam um casal.
Este terá sido interrogado pela PJ, assim como outras pessoas, mas nunca foi detido. Já o telemóvel terá ficado com as autoridades.
Foram efetuadas buscas e descobriu-se que Luís mentia a Francisca. Tinha um relacionamento com outra mulher, com que vivia, em Loures, e trabalhava como cantoneiro neste município e não como médico, em Lisboa.
Luís e Francisca ter-se-ão conhecido na aplicação de encontros Badoo, muito usada pela comunidade brasileira. Não se sabe há quanto tempo namoravam, mas ambos falavam, frequentemente, com a família da cozinheira desaparecida. No entanto, ao que tudo indica, a relação estava assente em mentiras.
Além das mentiras de Luís, sabe-se que o cartão da conta bancária onde a imigrante recebia o ordenado desapareceu e que foram apagados do seu computador vários ficheiros assim como e-mails.
Há ainda um bilhete, deixado na bíblia, e uma carta suspeita. “Tenho um casamento com Luís Jesus, a quem amo muito e estou muito feliz e grata”, lia-se na nota escrita, alegadamente, por Franscisca e encontrada na bíblia pelo irmão desta, na casa arrendada à brasileira, em Tabuaço.
Já Ismael Tomé, o senhorio de Francisca, revelou, em entrevista à SIC Notícias, que encontraram na mesma residência uma carta, na qual a cozinheira falava em “desilusão”. Junto a ela estava também uma aliança. Sinais que deram ao arrendatário a sensação de que a brasileira se tinha zangado com o namorado.
Na altura do desaparecimento, o programa Linha Aberta, da SIC, revelou que Luís Jesus tinha várias denúncias de vizinhos e de pessoas com que tinha tido relações e que também foram enganadas.
Perante várias informações que obteve neste sentido, o irmão de Francisca apelou mesmo às autoridades para fazerem buscas no terreno dele, onde haveria um porão.
A António terá chegado mesmo a receber uma denúncia de que Luís Jesus já tinha mantido a irmã – que entretanto também morreu, em circunstâncias suspeitas, para alguns vizinhos – “em cárcere privado, dentro desse porão” e que era violento com também ela.
Espera-se agora que, com a descoberta dos restos mortais encontrados em Tabuaço, o desaparecimento de Francisca tenha, finalmente, um desfecho. Os exames de ADN serão cruciais para a identificação oficial.




